31 Janeiro, 2012

Enganos sobre ateísmo


Primeiramente, ateísmo não é a negação propositiva de um deus. Descobri uma analogia (de minha autoria) que pode ajudar muitas pessoas a entenderem o que quero dizer quando sou ateu ou que não acredito em deuses. Eu não acredito que pessoas tenham tido contato com extraterrestres (em especial, nenhuma abdução nem discos voadores). Acho os depoimentos fracos e confusos, as fotos toscas, os materiais extraterrestres sempre faltantes. Enfim, as pessoas acreditarem porque têm necessidade ou vontade me parece bem mais provável do que os acontecimentos que elas alegam. Assim, se existisse tal expressão, eu seria um ateu dos extraterrestres. E isso não significa que eu nego veementemente o contato entre terrestres e extraterrestres, mas sim que não tenho razão para reverter minha posição. Acho que uma boa frase que sintetiza esse pensamento é a frase [perdoem-me por não encontrar o link] da Åsa Heuser sobre religião: "Não me convence". Esta é a minha posição sobre a ressureição de Jesus e sobre a abdução de pessoas: não me convencem. Outra referência adequada seria este post do Eli Vieira.

Há uma diferença óbvia: há supostas "provas lógicas" de deus (mesmo que falsas), que são consequências de raciocínio e não de observações empíricas, mas todas evidência de extraterrestres é empírica (mesmo que falsas). Por exemplo, sobre a existência necessária da primeira causa, ou do primeiro motor. Também rejeito estas provas - não por orgulho, teimosia ou escolha; elas simplesmente não me convencem. O raciocínio, penso, é humano e portanto também pode ser falho (tem um mundo inteiro nesta frase). O meu exemplo preferido (uso a título de ilustração para as pessoas entenderem meu ponto, não para convencê-las, embora indiretamente ajuda) é sobre a impossibilidade de vôo para máquinas mais pesadas que o ar. É lógico que a hereditariedade não pode criar informação genética, e é lógico que máquinas mais pesadas que o ar não podem voar. Também é lógico que o mundo teve um começo, e também é lógico que ele não pode ter começado do nada.

Às vezes me pedem para provar que deuses não existem (curiosamente, geralmente pedem por um em particular). A verdade é que não sei se deuses existem, e não sei se poderemos ter certeza disso em algum dia. Por exemplo, eu sou incapaz de mostrar a inexistência de Papai Noel. Não que eu rejeite ou negue o Papai Noel; somente não me convence. Acho que os brinquedos que eu ganhava têm uma melhor explicação. Mesmo que eu veja o Papai Noel sendo usado para enganar pessoas, e que haja uma explicação histórica para o surgimento de tal ser mitológico, não posso provar que ele não passa de uma fantasia. E não vou tentar provar a inexistência de deuses antes de provar a inexistência de Papai Noel. Mesmo quando usamos atributos como onipotente, onipresente e onisciente para definir o deus da Bíblia (Deus pelos fiéis) não podemos provar sua impossibilidade; sempre pode ser que estejamos fazendo algo errado.

Penso que ateísmo somente seja simplesmente não crer em deuses pessoais. Até então eu não havia feito tal distinção, mas existem pessoas que vêem um deus completamente desligado dos problemas emocionais humanos. Dependendo do caso ele cria o universo e depois desaparece (deísmo), ou ele é a beleza da natureza e a ordem do universo (teísmo de Spinoza). Para mim o ateísmo não fala sobre essas coisas. Acho simplesmente irrelevante para minha visão de mundo, assim como (outra ilustração!) o solipsismo. (Estou abreviando um pouco a história. Afinal, sou um ser pensante que sabe estruturar um raciocínio em vez de simplesmente vomitar seu saber.)

Um engano muito comum sobre ateísmo é a respeito da ciência. Ateísmo não fala sobre ciência; é simplesmente a ausência de crença em deuses (pessoais). E ponto. É possível ser um cientista ou um amante da ciência sem ser ateu. Também é possível ser ateu e não dar a mínima para esses assuntos, e mesmo ser "contra a ciência". Claro que algumas fatos científicos são bem estabelecidos e difíceis de combater, mas ateus são indivíduos, e não há nada de contraditório em ser ateu e defender a planicidade do planeta.

O ateísta não é obrigado a formular uma explicação científica para os elementos do universo, nem defender que os eventos do mundo natural sejam investigados cientificamente; ele simplesmente não acredita em deuses. Ateísmo não é uma explicação para o universo e para a vida; é simplesmente a ausência de crença em deuses. Por que é necessário associar uma coisa à outra?

Eu pessoalmente acredito que o método que chamamos ciência (sem entrar em maiores detalhes sobre o que é ciência) tem nos dado bons resultados, tanto em tecnologias úteis como em conhecimentos confiáveis. (Não vou discutir porque ciência funciona.) Posso frasear: eu (junto como as agências de fomento) confio na ciência e no trabalho dos cientistas, não por serem perfeitos, mas por valerem a pena. Esta não é uma crença nem um ato de fé, ao contrário do que alguns partorzinhos pretendem (projeção freudiana, na minha opinião). De qualquer maneira, ateísmo não significa necessariamente confiar na ciência, embora muitos ateus (e muitos não ateus) concordem que ela é o melhor intrumento para investigar o mundo natural. A ciência não é perfeita, mas como diz aquela camiseta... it works, bitches.

Faço questão de entrar num particular: a relação com o evolucionismo. Ocorre simplesmente que a teoria evolucionista (incluindo aqui a genética, a seleção natural e a ascendência comum) é uma explicação para a vida como conhecemos, explicando coerentemente (e cientificamente) várias semelhanças e diferenças entre os seres vivos. Muitas pessoas, atéias ou não, são evolucionistas. A diferença é que algumas religiões têm conflitos com essa teoria, enquanto o ateísmo é completamente neutro. A princípio é possível ser ateu e não saber por que a vida é assim, ou ter uma visão diferente. Hoje é meio raro acontecer, mas muito antes de Darwin a ideia de mutabilidade dos seres vivos e de evolução via seleção natural era desconhecida, e um ateu não teria uma resposta convincente como a que temos hoje. Nem por isso sua situação como ateísta seria diferente. Faço questão de frisar: ateísta não tem que ser evolucionista, nem defender o evolucionismo como forma de suportar seu ateísmo. Apesar da relação estatística (não tenho dados aqui, mas creio haver uma correlação positiva entre ateístas e evolucionistas), não há uma relação lógica.

Também o ateísmo não afirma que o universo surgiu do nada (como sempre acusam). Afinal, o ateísmo é simplesmente... você sabe o que. É normal interessar-se por essas questões, como por que existe alguma coisa quando poderia não existir nada, mas muitas vezes não há resposta decente. Ateístas são provocados a darem suas respostas sobre essas perguntas como se o ateísmo devesse dar uma resposta. Pessoalmente, prefiro admitir que não sei a dar uma resposta errada, como penso serem as respostas das religiões. O ateísmo não afirma nada sobre o universo. Um ateu é um indivíduo e pode responder como que quiser, inclusive admitir que não sabe. O ponto é que ele não vai sair pela tangente dizendo "Ah, foi deus que criou". Ateísmo não contém uma explicação para as coisas serem como são, ele é simplesmente... você sabe o que. Alguns religiosos não conseguem separar as coisas; acham que o ateu sempre fala em nome dos supostos princípios do ateísmo, ou da aludida visão de mundo ateísta. A verdade é que o ateísmo é vazio de proposições. Mesmo a inexistência de um deus pessoal não é um dogma; é só parte da definição de ateísmo. Ateísmo é só um nome, não é uma filosofia muito menos uma religião. É que nem a descrença em discos voadores avistados e abduções - só que com um nome curtíssimo.

Chegando ao campo da moral, ateus às vezes são acusados de serem imorais, ou de adotarem o ponto de vista do relativismo cultural. A verdade é que ateísmo não fala sobre moral. Ateus agem da forma que acharem melhor, assim como todas as pessoas, só que sua posição sobre religião não dita absolutamente nada, enquanto para um religioso pode interferir. Para mim o problema da existência de uma moral ou ética universal pertence à filosofia, e é super delicado para ter uma resposta tão simples (assim como a existência do universo, da vida, da consciência...). Não quero ter uma resposta simples e errada (como as que as religões oferecem) sobre esses assuntos.

Discussão menos polêmica é sobre os bebês serem considerados ateus ou não. Para mim não importa muito; é só o jeito de usar a palavra. Pode-se discutir e dar argumentos pelos dois lados, mas não tratarei disso aqui. De qualquer maneira, vou considerar que bebês não são ateus por não terem opinião formada sobre o assunto.

Por muito tempo considerei que só deveria ser considerado ateu quem também não acreditasse em coisas como astrologia, cura por cristais e pseudociências em geral. Hoje já não vejo mais motivos. Acho que para ser considerado ateu basta não acreditar em deuses pessoais (e ter o discernimento para isso). Para mim superstições e crendices (num sentido que excluem as religiões) são pura bobagem, mas acho que ser ateu é outra coisa, e que é possível ser ateu e supersticioso sem ser contraditório.

Em resumo: ateísmo não é uma afirmação propositiva da inexistência de deuses pessoais. O ateu não vê evidência de deuses, e não precisa provar a inexistência para sustentar sua posição de ateu. Ateísmo não fala sobre ciência, moral ou superstições.

15 Dezembro, 2011

aborto

Eu sou contra a descriminalização do aborto. Não por achar que o feto é uma vida humana, e tal. Pra mim não importa se a vida começa na fecundação ou no nascimento; esta é uma questão puramente etimológica. O que importa é como devemos tratar os fetos. Penso como um consequencialista/utilitarista (e só neste; não quero me prender a um rótulo para dar a opinião sobre os outros assuntos).

Não acho o aborto um direito natural do ser humano (nem da mulher, como pretendem algumas feministas). Não vejo por que seria. Ninguém é obrigado a engravidar; temos um verdadeiro arsenal de escudos contra a gravidez. Um deles, o preservativo, inclusive protege contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Se o aborto for liberado, diminuirá a pressão (principalmente sobre o homem) para o uso de camisinha, já que haverá uma defesa derradeira contra a gravidez indesejada (o aborto). Deve-se esperar um aumento de DSTs na população, já que o principal mecanismo que previne o contágio é a camisinha (além da abstenção). Outra consequência da liberação do aborto, um pouco sutil e pessoal, é tirar das pessoas, geralmente dos jovens imaturos, a responsabilidade sobre seus atos. Não quero ser moralista, mas quando uma pessoa engravida outra, elas têm que assumir as consequências. Este (o incentivo à irresponsabilidade) é um segundo dano à sociedade (além da maior incidência de DSTs), e contribui para meu posicionamento contra o aborto.

Há exceções em que raciocínio anterior falha, e o aborto passa a ser aceitável ou desejável. Por exemplo, quando representa risco de vida à mãe, ou quando a gravidez é resultado de estupro (dois casos onde o aborto é assegurado pela legislação). Pode haver outras possibilidades, mas minha imaginação não as está alcançando.

[Aproveito o clima de fecundação para dizer que eu nunca fui um espermatozóide. Eu só sou eu a partir do momento em que um espermatozóide se fundiu com um óvulo.]

09 Dezembro, 2011

sobre a indicação de Rosa Weber para o Supremo Tribunal Federal

Indicar uma mulher para uma posição somente por ser mulher é tão machista quanto descartar as mulheres como candidatas à posição por serem mulheres. No primeiro caso se descartam os homens; no segundo as mulheres. Foi o que a presidente (ou interina, não estou certo ainda...) Dilma fez; foi seu exemplo de demagogia da semana.

PS: As cotas raciais vão pelo mesmo caminho. E quero colocar duas expressões na mesma frase: novilíngua (newspeak) e ações afirmativas. Obrigado.

04 Dezembro, 2011

Por que você é um merdinha

(Agora que descobri o que é viés cognitivo, não paro de vê-lo nas atitudes das pessoas (inclusive minhas). Comecei a reparar também na autojustificação (nesse caso estaria mais relacionado à dissonância cognitiva, outro fenômeno do cérebro). Agora esses fenômenos mentais são bem mais explícitos do que nunca, e estou muito feliz por ter descoberto algo novo que me faz pensar todo o tempo. Faço essa introdução para dizer que eu não li tanto quando deveria sobre o assunto, e é exatamente por não saber direito quero mencionar algumas experiências relacionadas e escrever sobre o assunto antes de ter uma visão amadurecida. Mesmo me expondo bem mais a erros, quero escrever um post na base do achismo mesmo. Depois que eu souber mais sobre o assunto, postarei de novo. Acho que esse é o melhor caminho para estudar o assunto de mais maneiras e alargar minha compreensão do assunto. Mas fim de papo. Finjamos que o post comece abaixo.)

Reparo que as pessoas sempre conseguem justificar seus atos e ainda deixarem salvos seus padrões morais. Você desaprova qualquer manifestação racista, mas colorados (torcedores do Internacional, um clube de futebol) são macacos. Não temos nenhum preconceito contra homossexuais, mas o novo orkut é uma bichice. Mentir é errado, mas quantas vezes não se mente numa declaração de renda, fazendo pequenas omissões ou arredondamentos com desculpinhas ("ah, isso não entra no imposto", ou "ninguém vai verificar mesmo") nas quais realmente queremos acreditar. Eu tenho uma vida saudável, mas meus programas de exercícios e alimentação duram só os primeiros dias. Você diz que decidiu beber menos, todo orgulhoso de si, mas ainda é segunda-feira. Todo mundo é a favor da construção de novos presídios, mas não aqui. Há toneladas de outros exemplos, mas eu não vou me alongar (julgue você mesmo se este é um exemplo!!!).

Várias vezes o que acontece é que as pessoas assumem um ponto que é confortável pra elas, como se fosse o vértice mais inferior da letra V. Sempre se pode dizer algo bonito e satisfatório sobre como nos cuidamos, sobre quanto honestos ou corretos nós somos, e ainda dizer que não somos radicais (veja só! outra virtude nossa!) quando somos confrontados com nossas atitudes. Grandes canalhas nós somos, todos nós. Inventamos qualquer justificativa para nos perdoarmos de nossos vícios, defeitos e incoerências. É ridículo. (Pesquise mais sobre dissonância cognitiva. Eu pesquisarei.)

(Não deixa de ser curioso que todo este post e a minha angélica intenção de conhecimento formam um exemplo de um viés cognitivo, mas precisamente viés (ou tendência) de confirmação. Estou hiperanimado (eu era muito bom em português, mas depois dessa reforma ortográfica não sei mais hifenizar!) para pesquisar sobre esses assuntos, mas ao mesmo tempo reconheço que gosto bastante de ler sobre eventuais defeitos de julgamento do cérebro, e que estou ávido para ler as coisas que confirmam o que eu penso! Que coisa terrível, estou completamente enviesado e acho que vou aceitar muito facilmente o que me disserem como evidências de erros cognitivos, e praticamente ignorar as eventuais críticas. Preciso tomar cuidado para não me deixar levar.)

Não sei exatamente em que nível que se processa a má-fé das pessoas. Não sei se é mais vontade de convencer os outros ou de se convencer. Mas para mim há muita má-fé em muitas declarações. Comumente decidimos omitir o que desfavorece nosso ponto de vista por já "saber" que não são evidência suficientes para minar nosso argumento, e mencionar, nos justificamos, só iria confundir as outras pessoas. Lembro de uma reportagem, se não me engano, na revista Época, sobre o Lula e o SUS, condenando todos os que diziam que era um preconceito sugerir que ele se tratasse no SUS (ele está se tratando de um câncer enquanto escrevo). Quem ler vai concordar com o que está escrito, mas quando sabendo de mais coisas, nosso julgamento deveria ser diferente. A reportagem não menciona que Lula considerava o SUS próximo da perfeição (parece que ele até sugeriu que o Obama fizesse um, sábio internacional que é), e que disse que tinha vontade de ficar doente para se tratar numa unidade pública de saúde. Não acho que por isso Lula deva se tratar no SUS, mas acho que estas novas informações, omitidas na reportagem, legitimam as pessoas a levantem essa questão e a confrontarem Lula com sua próprias palavras.  Devo destacar, também, que me dá um sentimento ruim ler publicado algo com que não concordo, e me dá um alívio quando leio pessoas publicarem a mesmo opinião que eu tenho. Vejo isso bem mais claramente agora.

Outra fenômeno incrível (sobre este nunca achei referências; quem conhecer me avise) ocorre quando há uma discussão pública, geralmente em mídia escrita, com artigos ou posts, por exemplo. Os dois lados conseguem ter razões, e quem já defendia um lado acaba somente fortalecendo sua posição. Digamos que há dois sujeitos de diferentes opiniões, X e Y, e escrevem alternadamente os textos A, B, C, D, E e F, nesta ordem. Quem lê X vai ver o texto A, o texto C desmontando o texto B, o texto E desmontando o texto D. Ou seja, vai ver ao longo de toda a discussão, cada vez mais surgiam argumentos que somente fortaleciam o ponto de vista de X. Já as pessoas que leem Y vão ler o texto B que critica o texto A, o texto D criticando o C, o texto F criticando o texto E, e encontrarão uma montanha de argumentos sustentando a posição de Y. Assim, cada lado sai com mais certeza ainda da discussão, certo de que além de destruíram completamente a sustentação do ponto de vista oposto. Isso não ocorre só na mídia escrita, claro. Ao menos no meu ponto de vista, isso acontece nas várias vezes em que discuto e que sinto sair vitorioso. Penso que o outro lado também pense sair vitorioso.

Resumindo: o pensamento funciona mal, e nossos cérebros são ferramentas defeituosas. Quem escreve aqui neste blog é um cérebro (que explora alguns ossos e músculos anexados), que clama ser defeituoso.

18 Novembro, 2011

Da esquerda, ou extrema esquerda.

Os últimos acontecimentos envolvendo a invasão da reitoria da USP revelaram muito do pensamento do que é a esquerda, ou extrema esquerda. Vamos analisar alguns pontos que eu acho mais flagrantes. Como existem pessoas com um pensamento bem obtuso, devo ressaltar que às vezes faço uso da ironia.

Os esquerdistas confundem (não tão inocentemente assim; faz parte de um método) autonomia universitária com soberania. Eles causaram uma grande baderna quando policiais flagraram três estudantes no campus portando uma quantidade de maconha que caracterizava tráfico. Na verdade o assunto envolve um histórico, mas não estou a fim de citar.

Tendo uma assembleia para decidir se invadiam a reitoria como resposta à presença policial, ganhou o voto para não invadirem. Horas depois, quando a maioria já tinham ido embora, puseram de novo o assunto em pauta e daí ganhou o voto para invadirem. Votação só tem legitimidade quando acontece o que esse grupelhos querem. Daí invadiram a reitoria.

A reitoria tentou negociar. Os invasores reclamavam que a reitoria era intransigente, mas eles é que não aceitavam qualquer resolução que não incluísse a Polícia Militar fora do campus. Incrível.

Dias depois, a Justiça expediu um mandado de reintegração. (Não entendo de Direito; acho que estes são os termos corretos.) Os invasores ficaram, e só saíram com a força policial. Eles provocaram, mas nenhum "estudante" saiu ferido. Sabe como é, esse pessoal precisa criar um clima de guerra, de oposição. Reclamaram da truculência da polícia, que estava cercando a USP, e outras bobagens até difíceis de contar de tão absurdas. Enquanto isso, havia gasolina e coquetéis Motolov preparados na reitoria, tudo pronto para fazer bastante confusão.

Resolveram então, no controle do DCE... decretar greve geral. A razão era a truculência da polícia, e sua presença no campus. Infelizmente, não era greve o que a maioria queria. Inclusive, quando se faz uma pesquisa em vez de uma assembleia, a maioria dos entrevistados também é favorável à PM. Mas que isso importa para a causa revolucionária? Outra coisa que pedem é eleição direta equiparitária para reitor. Há várias nuances aqui. Só vou mencionar que em nenhuma universidade séria no mundo o reitor é escolhido assim (os motivos fazem parte das nuances).

Fizeram vários esforços em impedir as aulas, bloqueando prédios e intimidando professores e alunos que quisessem aula, ou que por ventura se manifestassem publicamente a favor das aulas. Coisa muito parecida acontece numas ditaduras por aí.

Ano que vem, pretendem fazer a maior greve da década. Por que razão? Não se sabe. Um deles afirmou que o motivo vinha depois. A intenção é óbvia: desgastar o governador e o prefeito de São Paulo, que não são petistas. Curioso que muitos servidores da federais, inclusive na UFRGS, ficaram em greve por quatro meses, dificultando ou impossibilitando vários serviços. Quem precisava se formar que o diga. Mas isso praticamente não foi notícia nem manchou o governo. Acho que algumas pessoas deliberadamente fazem o assunto aparecer mais quando é contra alguém fora da semi-reta da esquerda.)

Num outro dia, fizeram outra assembleia. Em geral, elas são no horário de aula e duram horas, de modo que uma proporção bem maior de vagabundos que estudantes de verdade podem acompanhá-las. Supostamente, votaram para decidir o fim da greve na  Faculdade de Letras. O curioso é que depois de conferidos os votos, só podia se manifestar e falar em público quem tinha se abstido de votar. Aconteceu que essas pessoas supostamente neutras eram praticamente a favor da greve, ou de uma paralisação, para ser votada noutro dia. Ou seja, se você é aluno e quer estudar, tem que passar bastante tempo só frequentando assembleias longas votando várias vezes contra paralisações, e ainda conseguir que mais pessoas façam isso. Uma dessas pessoas "neutras" (pra mim ela se absteve para poder discursar) disse que quem queria a PM no campus era fascista. Ora, algumas atitudes acima (e abaixo, pode apostar) são fascistas. Quando outra pessoa foi discursar para responder... não deixaram! Afinal, o circo é deles. Democracia e liberdade de expressão só é bom para repetir as próprias ideias.

A eleição para o DCE estava marcada para os dias 22 a 24 de novembro. Já houve vários casos de impugnação de urnas no passado (e parece que o DCE atual é quem organiza a eleição). Havia uma chapa que não era de esquerda, que não estava alinhada a PT, PSOL, PCO, PSTU e companhia, que defendia a excelência no ensino e na pesquisa (que absurdo, que alienados!), e parecia que ela ia se sair vencedora. Mas isso não pode acontecer! O DCE então (lembre que ele é controlado por grupos de esquerda) declarou que por causa da greve, não haveria eleição esse ano! Golpe! O DCE não pode mudar a data da sua eleição (segundo o Regimento, somente o Centro de Assuntos Estudantis poderia fazer isso). Isso mostra como essa gente se apega ao poder. Eles não aceitam perder.

(Isso me lembra o Jean Wyllys, ex-BBB e agora deputado federal pelo PSOL, que achava que não devíamos fazer um plebiscito sobre casamento gay, porque o povo "que não é bem informado" não votaria corretamente. Ou seja, não é uma questão de opinião ou maioria; ele simplesmente sabe o que é o correto. Os que discordam dele são fascistas ou estão mal informados.)

Outro caso foi quando alguns brucutus foram intimidar um integrante da chapa não-esquerdista. Para se defender, o sujeito afirmou que estava armado. E não é que então, doidos por pegar um adversário, os brucutus chamaram a polícia? Bem, o rapaz não tinha arma nenhuma. Mas não tem problema; é suficiente para tentar caracterizar os adversários (Lula diria simplesmente "eles", apontando por cima do ombro) como violentos.

E a história continua... (será que se repete ou rima?) Porque já vi histórias parecidas aqui na UFRGS, embora em geral com menos intensidade. Soubera isto na época em que eu ainda era aluno de graduação...

Fico imaginando se era esse o tipo de pessoas que lutava contra a ditadura militar. Sim, porque hoje eles recebem indenizações e dizem que estavam lutando pela democracia (alguns estavam mesmo), mas havia vários cujo objetivo era implantar o comunismo no Brasil, comandado por eles. Não sei não. Estou começando a me emancipar da opinião dos professores de história e geografia (no Ensino Fundamental) e estou começando a achar que a ditadura militar não foi uma completa algoz da democracia.

16 Novembro, 2011

Vieses cognitivos (um elogio da imperfeição)

Você confiaria em um produto que se dissesse invulnerável a erros e por isso não tivesse garantia? Eu não. Prefiro aqueles que reconhecem que podem falhar ou apresentar defeitos, e por isso apresentam garantia.

Levo isso em conta tratando de mim e dos outros. Sempre acabo perdoando os comportamentos e pensamentos alheios por mais idiotas que sejam, achando que todo mundo tem os seus deslizes e defeitos, e que isso não previne ninguém de ter uma mente sadia e funcional.

Há dois fatores influentes no perdão acima. O primeiro é uma crença ou confiança no indivíduo, na sua capacidade de pensar. O segundo é a natural ocorrência de falhas em muitos aspectos da mente humana, e é o que faz a ligação com o primeiro parágrafo. Muitas vezes temos nossas opiniões e atitudes borradas por mesquinharias, por orgulho ou vaidade. Reconhecer que isso acontece não é incentivar esses comportamentos. Penso que vale exatamente o contrário; é o que mais nos valoriza como pessoas. Reconhecer nossos defeitos é meio ápice do humanismo (a outra metade do ápice é reconhecer as virtudes).

Outro momento em que devemos levar isso em conta é na feitura das leis. Códigos de lei que supõem que todos são príncipes não irão muito longe. Leis devem ser feitas para lidar com porcos que eventualmente vão infringir as leis e que vão buscar eventuais furos para burlá-la.

Esse reconhecimento dos erros internos pode ser usado justamente para impelir-nos à frente, tirando alguns obstáculos do caminho. Alguém que não possa admitir que possa estar errado vai ficar estagnado no mesmo erro. O oposto é a proposta da ciência: saber que tem incorreções e imperfeições, e com isso ter caminhos para mudar e corrigir o que foi dito e feito. Essa é a postura que devemos ter como pessoas também. Ao menos é o que pretendo seguir (tentando ficar livre da vaidade de poder dizer algo assim).

Entre muitíssimas outras coisas, acho curioso que duas pessoas possam sustentar opiniões completamente diferentes, mesmo quando expostas à mesma evidência. Mesmo se tratando somente de raciocínio abstrato, pessoas podem diferir no que devemos ou podemos fazer com as assertivas. Isso é estranho para quem pensa numa razão suprema. Depois de ler sobre vieses cognitivos, em especial tendência de confirmação, minha vida mudou (adquira agora mesmo o seu!). Em parte confirmou algo que eu já esperaria ou gostaria que fosse: a mente humana é sujeita a muitas falhas.

Para quebrar o padrão, embutirei um vídeo no blog.


Esperem novas postagens com a minha mais nova ferramenta!

Criacionistas, Chávez e alguns petistas: um paralelo

Os criacionistas me dizem que são plenamente a favor da ciência. Dizem que a única coisa que eles são contra são os usos indevidos da ciência, ou seu mau fazer.

Hugo Chávez também é a favor da imprensa. Claro, não aquela imprensa que noticia fator desfavoráveis ao governo, por representarem notícias contra a Venezuela; esses jornalistas merecem a cadeia, quando menos.

Alguns petistas (incluindo o chefão e o chefe de quadrilha, mas ao que parece não a presidente) gostam tanto da mídia que querem democratizá-la, minando o poder dos conglomerados reacionários e de direita, que aparentemente não suportam o Brasil justo e cheio de oportunidades construído nessa última década.

Preciso reler o romance 1984, de George Orwell, de preferência em inglês. Quero reavivar na minha mente o conceito de novilíngua (newspeak).

Estou ciente de que procuro uma fonte que vá reafirmar minhas convicções prévias. Eu recomendíssimo esta lista de vieses cognitivos (em português), ou esse artigo sobre viés ou tendência de confirmação (em português). Vai ajudar o senhor leitor a conhecer um pouco do vocabulário que este blog apresentará daqui para a frente.

14 Novembro, 2011

Voltaremos

Tenho catorze temas já escolhidos para escrever, entre rascunhos antigos, frases perdidas e novas ideias. Aguardemmmm.

27 Outubro, 2011

sobre postura e crença

Sou profundamente contaminado pela ideia de modelo. Sempre penso que há hipóteses ou princípios e que a vida pode ser vivida através deles, mesmo que eles não sejam gerais, absolutos (e nem validáveis como verdadeiros e falsos). Por exemplo, minha posição de ateu significa que eu vivo como se não houvesse mitos (o Deus do livro Bíblia é, na minha classificação, um mito, assim como o Cthulhu das obras de Lovecraft) ou entes sobrenaturais. É uma questão mais de postura que de crença.

Às vezes o meu palpite sobre o funcionamento do universo é diferente do modo como eu vivo. Só consigo recordar-me de um exemplo. Pelo que eu imagino do espaço-tempo através do modelo simplérrimo que tenho na cabeça (uma variedade - quem disse que o universo deveria ser tão simples e se encaixar num conceito que os seres vivos criaram em cinco bilhões de anos?), mesmo com as imprecisões e incertezas da mecânica quântica, pra mim a única coisa realmente coerente é um universo fatalista (e universo pode ser bem maior, podendo incluir nele mesmo o que outras pessoas chamam de realidades paralelas). Não consigo imaginar que o tudo possa ser diferente do que é.

Na verdade, penso na incerteza de algumas variáveis como um problema (ou melhor, particularidade!) da teoria e das medidas, não como algo intrínseco à matéria/energia. E em última instância não dá para conhecer algo fora da teoria (do modelo, das hipóteses, dos princípios, do jeito de ver e denotar). Fora do modelo, as perguntas não fazem sentido ou pertencem ao que chamo de filosofia. Nada contra filosofia, só acho que suas perguntas não têm uma resposta no sentido que uma pergunta dentro de um modelo teria.

Apesar da minha "aposta" fatalista, não posso (ou seja, não quero) adotar isso como uma moral para mim. Eu vivo como se eu tivesse escolhas. Se tenho ou não, não sei e acho que não dá para saber, mas vivo como se tivesse.

Eu diria que sou cético em relação ao conhecimento. Até a lógica (tradicional) para mim não é intrínseca. Normalmente, parece verdadeiro e óbvio que

A implica B (hipótese 1)
A                (hipótese 2)
B                (conclusão)

Mas... por que? O que quer dizer "implica" a ponto de concluirmos uma coisa da outra? Não acho que possa ser. A menos que sejam por uma definição a mesma coisa. Mas aí usar das definições assim é patinar na glicose. Mas como a lógica (tradicional) está funcionando e parece intelectualmente razoável, mantenho-a como parte do time.

Não acho que essa consciência (isso do meu ponto de vista; outros podem, com suas razões, dizer que é um palpite ruim meu) de que as coisas com que lidamos não têm valores intrínsecos e devem ser avaliadas num contexto em que, por exemplo, se saiba o que é avaliação seja realmente necessário, mas penso que é útil. Não é necessário porque seria muita arrogância dizer que todo mundo devia pensar o mesmo que eu (e isso significa que eu deveria deixar livres [em pensamento e atos] as pessoas acreditarem num mito sem as minhas ponderações sobre diferenças entre postura e crença), e no fim podemos viver mesmo que as pessoas vivam num modelo dentro do modelo de outra (porque se eu pensar, o jeito que eu lido com as coisas, como descrito aqui, também é uma espécie de modelo). Também acho que é útil porque podemos ver de forma mais crítica qualquer palavra proferida e julgá-la de forma mais abrangente.

Isso de achar útil mas desnecessário também é meu, assim como qualquer opinião deste blog. São só coisas que eu acho e com as quais eu vivo, ou tento viver, de acordo.

Não sei como devo chamar-me por assim ser e pensar.

18 Outubro, 2011

um erro em analisar as consequências

Considere um problema em que temos duas ou mais opções para escolher e que cada uma vai nos levar a diferentes consequências, e queremos saber qual a melhor. Pegando exemplos na sociedade civil, a legalização da maconha, a existência da meia-entrada para estudantes, a possibilidade da pena de morte. Como devemos pensar para tomar tais decisões?

Um grande erro que se comete, erro que também já cometi, é analisar como seria um mundo com cada uma das alternativas, mas ignorar que tivemos que fazer uma mudança em um dos casos.

Por exemplo, não adianta pensar como seria um universo em que as bebidas alcoólicas fossem proibidas e comparar com o mundo atual (na qual não são, não aqui no Brasil). Para saber se devemos ou não proibir as bebidas alcoólicas, devemos analisar o melhor entre deixar como está e fazer a mudança. Uma grande diferença, não?

Outro "erro", mas que no caso é praticamente proposital (uma atitude "política"), é discutir assuntos que têm bem menos relevância no resultado que se quer chegar do que outras possíveis ações ou práticas. Por exemplo, houve uma grande discussão sobre o "Estatuto do Desarmamento" (na qual me envolvi seriamente quanto podia), com direito até a referendo. Agora acho uma perda de tempo deliberadamente criada para desviar a atenção dos reais problemas de segurança no país. Teria sido bem mais válido fazer ações contínuas em melhorar a força policial e tentar resolver (num sentido meio matemático) um pouco da burocracia que envolve julgar um criminoso.